Um projeto multidisciplinar internacional que localizou e está pesquisando os restos do brigue norte-americano Camargo em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, 170 anos após o seu afundamento. Este é o naufrágio de um dos mais famosos navios escravagistas do mundo, um dos últimos a trazer ilegalmente africanos escravizados após a lei de 1850 que proibiu o tráfico de africanos no Império.
Em 1852 o tráfico de escravos já era proibido nas Américas.
Mesmo assim, o famigerado capitão americano Nathaniel Gordon trouxe o navio Brig Camargo ao Bracuí, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, com 500 africanos escravizados a bordo.
Segundo relatos da época, após descarregar sua triste carga humana, ele incendiou e afundou o brigue Camargo para fugir das autoridades brasileiras, curiosamente travestido de mulher. Este naufrágio permaneceu oficialmente desaparecido por quase dois séculos.
Dez anos mais tarde, em outra viagem escravagista, do Congo para Cuba, este capitão Gordon viria a ser capturado e preso, condenado pelo mesmo crime de tráfico de escravizados. Gordon viria a se tornar o primeiro – e único – traficante de escravizados a ser condenado à pena capital na história do EUA. Isto só foi possível porque o recém-empossado presidente Abraham Lincoln havia decidido eliminar o tráfico ilegal de escravizados, realizado por norte-americanos. Por isto a história do Camargo é tão relevante para o Brasil e para os EUA.
Este projeto, desde sua concepção, vem sendo realizado com a participação direta dos membros do Quilombo Santa Rita do Bracuí. A comunidade manteve viva, via história oral, a história do navio escravagista que foi afundado de propósito na região. Este relato foi o começo das pesquisas histórias e arqueológicas que levaram a localização oficial do brique Camargo.
Jovens do Quilombo aprendem técnicas de mergulho autônomo, de pesquisa histórica e arqueológica, e de produção audiovisual para trabalharem neste projeto e se capacitarem ao mesmo tempo, preservando o sítio arqueológico que é legitimamente parte de sua história.
O projeto foi iniciado entre novembro e dezembro de 2022, e culminou na localização oficial do naufrágio do brigue Camargo em Dezembro de 2023. Os trabalhos de identificação, pesquisa e conservação seguem em andamento.
Neste contexto, memória, história e arqueologia estão se somando para revelar crimes contra a humanidade e buscar reparação da história do tráfico e da escravidão no Brasil a partir de Angra dos Reis.
A equipe tem a autorização oficial para a pesquisa na Baía da Ilha Grande emitida pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que é o órgão do governo federal responsável pela preservação de sítios arqueológicos inestimáveis como este.
Em 2024, o projeto foi contemplado pelo Fundo do Embaixador dos EUA para Preservação Cultural, e as pesquisas continuam.
A história do Capitão Nathaniel Gordon está contada no livro Hanging Captain Gordon, de Ron Soodalter.
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